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Lua de Sangue – Parte VIII


As noites são eternas porque não estás aqui e eu estou demasiado perdida nas memórias que tenho de ti para te deixar sair assim da minha vida. Há pouco mais de 3 meses que não te vejo e parece estivémos separados uma vida inteira. O tempo parou na noite em que te foste embora e os meus olhos perseguiram a tua sombra a sair pela porta.

Queria que estivesses aqui esta noite, que tudo fosse como antes. Queria poder olhar-te nos olhos e dizer que a nossa condição não é culpa tua. Hoje era capaz de te trazer para o meu mundo como sempre pediste, tu voltarias a fazer com que me sentisse humana e eu faria com que tivesses a vida eterna. Todas as tentativas de te esquecer, falharam. Agora estou aqui, sentada no sofá com um copo de vodka na mão a pensar que esta não sou eu. Nada vai fazer-me esquecer quem és e vou amar-te sempre da mesma forma, mesmo que não queira. De todos os copos que atirei contra a parede, apenas para quebrar o silêncio, nenhum me fez sentir melhor. De todos os homens com quem falei depois de te ires embora nenhum me fez sentir nem um pouco daquilo que tu fazes sem me dizeres nada.

Hoje, apenas hoje...e depois amanhã e para sempre, eu queria que estivesses aqui. Que me beijasses como naquelas noites em que te esquecias de como eu poderia ser perigosa, em que tremias cada vez que os meus caninos roçavam o teu pescoço, que te arrepiavas quando o meu corpo frio se encostava no teu, tão quente. Depois olhavas-me nos olhos com a terrível admiração de ver a predadora com piedade da sua presa, quando na verdade eu estava enganada e a presa era eu.

Esta noite, preciso da água fria do chuveiro sobre o meu corpo para que lave as saudades que te tenho e o amor que te devo. Será que vais voltar? Há momentos em que não consigo acreditar nisso e tudo isto é por tua culpa. Deixaste-me ficar assim e eu quis perdoar, mas nunca vou esquecer. Queria apenas olhar-te nos olhos e dizer-te o quanto te odeio. Odeio-te, ouviste? Eu odeio-te...e odeio-me ainda mais por te amar tanto...

Cláudia Melim
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Lua de Sangue – Parte VII

É aconselhável ler as partes anteriores de Lua de Sangue.

Lembro-me do cheiro das flores, das pétalas a roçarem os meus ombros, da textura do veludo na minha pele, do cheiro intenso a cera de vela, dos gritos, do choro e depois o silêncio. Os olhos espelhando o horror. Se alguém pode dizer que viu o seu próprio funeral? Eu posso, mas não foi bonito. 

Os olhos pousados em mim sem palavras. As pessoas a desmaiarem e todos à sua volta, só tive tempo de fugir. Sai da cidade nessa mesma noite. Completamente perdida. Soube mais tarde que o meu criador tinha sido morto pouco depois de me transformar, foi por isso que me tinham encontrado e me tinham dado um funeral decente.

De todas as pessoas presentes no funeral, eu só me lembro de ti. Tu estavas lá. Vestido de smoking preto, a olhar fixamente para mim quando me levantei e fugi. Estavas a escrever as condolências. 

Demorei para entender a história daquele colar. Passei dias a pensar quem me teria oferecido tal presente e nunca o soube. 

Hoje, vieste ver-me. Pensei que nunca mais nos veríamos, mas lá no fundo eu sabia que vinhas. Quiseste falar sobre nós e contaste-me a tua história. Nunca tinha feito tanto sentido, o colar tinha sido um presente teu. Começaste a seguir-me como forma de investigares o que andava a fazer e acabaste por te envolver demasiado. 

- Estás arrependido? – perguntei 

- Arrependido de quê? 

- De te teres aproximado demasiado? 

- Não. Estou apenas arrependido de não ter sido demasiado egoísta para evitar que te tornassem assim.

- Podias ter impedido? – questionei. 

Viraste as costas e começaste a caminhar para a porta. 

- Parece-me que já não tenho mais nada a dizer-te. O que aconteceu é passado. Tu és uma vampira, eu sou humano. Não há nada que nos una agora. Disseste que eu deveria viver a minha vida, é o que vou fazer a partir de agora. Só achei que... 

- Vieste aqui dizer-me tudo o que te tinha dito anteriormente? – interrompi – Vieste dizer-me que tudo o que se passou entre nós é passado? 

Não me contive e num golpe encostei-o à parede, olhei-o nos olhos. Tinham lágrimas. 

- Porquê que não me dizes a verdade? 

Ele inspirou fundo. 

- A verdade? De que vale a verdade agora? É tarde demais. Não percebes que já tentámos ficar juntos e não dá? 

 - Sim...mas não tens de me dispensar assim. – empurrei a mão contra o seu peito para que não se mexesse. 

- Não percebes, pois não? O que me trouxe aqui, porque vim atrás de ti, porque te contei todas estas coisas...Eu amo-te. 

Olhei-o por momentos. 

- Eu amo-te. Sempre te amei, desde que eras humana. E naquela noite, podia ter impedido que te tivessem transformado, mas não iria confrontar o teu namorado mesmo estando armado. 

- O meu namorado?! - Tu não te lembras de nada...Eu não quis enfrentá-lo porque sabia o preço que ele pagaria por te transformar sem autorização. E foi o preço que ele pagou. Fui eu que liguei à policia que te encontrou morta. 

A minha mão caiu do seu peito e afastei-me. 

- Que estás a dizer-me? 

- Eu sou o culpado da tua condição. Não espero que me perdoes. 

Baixaste a cabeça. Tudo o que me estava a passar pela cabeça, não fazia sentido, estava demasiado confusa. Não me lembrava de nada do que ele tinha contado. 

- Vou-me embora. – disseste enquanto saias pela porta, não te impedi. 

Às vezes, as pessoas tomam pequenas decisões que são capazes de mudar o rumo da história. Não consigo sentir raiva de ti, não depois de tudo o que vivemos juntos, não depois de teres cuidado de mim durante todo este tempo. A lua de sangue continua no meu pescoço. Sempre achei que de alguma maneira ela me guiava até ti e não quero perder-me novamente. Posso compreender o que fizeste naquela noite : quiseste dar significado a um amor para sempre?

O meu amor por ti será para sempre...
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Lua de Sangue – Parte VI

É aconselhável ler as partes anteriores de Lua de Sangue.

 Hoje é uma daquelas noites em que me apetece sair e divertir. No meu vocabulário, diversão sempre esteve conectado com os humanos. Eles divertem-me, deslumbram-se e fazem tudo o que quero, até se tornarem irritantes e a caça deixar de ter piada.

Vesti-me a preceito, maquilhei-me e sai. O silêncio na rua fez-me pensar que me tinha perdido no dia da semana. Não parecia sexta-feira. Não havia carros, nem jovens barulhentos à procura de um bar. A rua estava vazia e quando olhei para cima a lua estava tão brilhante que me lembrei de ti. Voltei atrás e entrei no teu apartamento. O teu cão olhou-me por momentos e voltou a dormir. Olhei-te deitado sobre a cama. 

Pareces um anjo, sabias? Um anjo de asas brancas que aos poucos eu torno negras com a minha influência. Admiro a tua inocência, ao dormires com a tua arma pousada na mesinha de cabeceira. Não vives num sítio assim tão perigoso, só eu represento perigo para ti e a tua glock não me mataria, deverias sabê-lo. Sei que continuas a achar-me humana, a pensar em mim como humana. 

Uma vez disseste-me que darias a tua vida por mim. Para ser sincera, achei engraçado e um desperdício inútil da tua vida, mas se ainda respirasse como tu, acharia um acto heróico. Há noites em que lamento a minha condição. Noites em que daria tudo para poder ser como tu. Em que nunca mais me debateria por nada e não fugiria de ti. Tenho a certeza que ficaria contigo até morrer. 

Às vezes, tenho saudades de momentos que não vivi contigo, pois costumavas partilhar o que querias fazer comigo se eu fosse humana e pudesse andar à luz do sol. E nesse momentos, em que se mistura o sorriso com as lágrimas de sangue eu sei que nós não podemos mesmo ficar juntos. Não fomos talhados para isso. E sinceramente, não posso continuar aqui a deixar que me sigas quase todas as noites,a sentir o teu cheiro no quarto cada vez que acordo, sabendo que me vieste ver.

Tens de me esquecer, seguir com a tua vida e encontrar alguém que mereça tudo aquilo que foi destinado a ser meu. Se me vai custar esquecer-te? Não vou tentar fazê-lo. Não vale a pena...tu não vives somente no meu coração, fazes parte de mim de uma maneira impossível de descrever...
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Lua de Sangue - Parte V

É aconselhável ler as partes anteriores de Lua de Sangue.

Diary by way2col4u


Querido diário,

Eu amo-o. Desde o primeiro instante, desde a primeira vez. Será que ele ainda se lembra da primeira vez que nos vimos? 

Hoje releio todas as tuas páginas e denoto como nunca escrevi sobre ele. Porquê? Não sei. Talvez o quisesse só para mim, todas as nossas memórias guardadas só para mim, todos os nossos momentos. Quero-o só para mim...tenho a certeza disso, ele é a minha pequena obscessão, o meu “guilty pleasure”. E ele diz que é meu, posso fazer com ele o que quiser e no entanto, não faço nada...Não consigo...Tenho medo...Lembro-me tão bem de todas as vezes em que atirei o meu corpo sobre a cama e pensei nisso. 

Sabes, ainda sinto a presença dele e o seu olhar pousado em mim de todas as vezes que me seguiu e sei que lá no fundo isso sempre me protegeu. Gostava de lhe ler os pensamentos e saber se ele pensa em mim assim...se ainda se lembra daquela noite. 

Tinha chegado à cidade e estava completamente perdida, há dias que não me alimentava. A cidade à noite é assustadora. As sombras dos carros que dançam nas paredes, os candeeiros que piscam sem parar, a chuva que embate constamente nos caixotes do lixo. Não me sentia em casa. Estava numa daquelas noites em que mais nada me importava e se tivesse morrido (como se fosse possível), seria apenas menos uma.

Depois ele apareceu, afugentou os mendigos que vieram na minha direcção e ajudou-me a entrar no carro, levando-me para a sua casa. Tenho a certeza que não percebeu porque estava fraca ou porque quase não lhe dirigi a palavra. Era estranho alguém estar a tratar-me tão bem. Mas na manhã seguinte ele já não me viu.

 O que sobrou daquela noite, para ele, foi um pouco de nada. Mas para mim, sobrou o modo inocente como dormia, o toque da sua pele, a suavidade dos seus cabelos...Naquela noite, soube imediatamente que não podia ficar perto dele, seria demasiado perigoso para nós,  por mais que sentisse que ele seria um anjo da guarda.

A partir dessa noite, comecei a vê-lo em todo o lado onde ia. Sei que ele assistiu à minha primeira morte aqui. Não queria companheiros, nunca quis, queria apenas alimentar-me e isso descansou-o. Não queria construir um exército de vampiros, queria apenas existir, sobreviver aqui.Ele ajudou-me. Comecei a existir para ele e isso bastava-me.

Nunca quis que ele se aproximasse, mas também não queria que fosse embora. Havia uma razão para me alimentar todos os dias, para reconstruir a minha vida aqui. Imagino que ele pensava em mim, todos os dias, mesmo que não fosse pelas melhores razões. Havia um laço ténue entre nós. Uma espécie de amor que se alimentava todas as noites e que se desvanecia todas as manhãs...

Ele não podia aproximar-se demasiado. Mas sei que queria ver-me. Senti-o durante várias noites do lado de fora da minha janela. Às vezes, quando não vinha eu passava pelo seu apartamento e ali estava ele, no computador. Ele sabia das minhas visitas, porque o  cão escondia-se no meio das suas pernas e ele sorria.

No entanto, nunca levantou os olhos para me olhar directamente até à primeira vez que me entrou em casa e me aproximei demasiado. Foi a noite em que soube que não consigo controlar certos impulsos e que o que ele despertou em mim foi muito mais que desejo por sangue, despertou amor. Eu amo-o. Eu amo-o. Eu amo-o.

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Lua de Sangue - Parte IV

É aconselhável ler as partes anteriores de Lua de Sangue.

Mente-me. Mente-me. Mente-me. 

A imagem daquela noite não saía da minha cabeça, as tuas palavras quando disseste que me amavas continuavam gravadas, queria que fossem mentira. Estava a achar-te o homem mais louco à fase da terra. Quero que acredites que nunca ninguém se tinha mostrado tão apaixonado por mim como te mostraste. Quero que acredites em mim e saibas que desejei que aquela manhã nunca tivesse chegado. 

Depois de adormeceres passei a noite com os olhos postos em ti. Tinhas um ar tão inocente enquanto dormias. Os vampiros não dormem, devias sabê-lo. Somos predadores nocturnos e tu eras a presa mais inofensiva que já tivera tão próxima de mim e com o sono mais pesado também. 

Durante várias vezes durante a noite aproximei-me de ti e lambi-te o pescoço, mas apenas senti o teu corpo a mexer-se levemente por baixo dos lençois. De certo modo, divertia-me a nossa situação. Como é que depois de tudo eu estava ali? 

Aproveitei enquanto dormias para me levantar e lentamente fechei todas as cortinas do quarto. Por entre a roupa que se encontrava no chão, encontrei os meus pertences e vesti-me. Voltei para a cama. Sentei-me devagar e olhei-te por momentos. 

- Que será de nós agora? – pensei. – Não posso ficar contigo...tu não podes andar comigo na rua. É demasiado estranho tudo o que sempre se passou entre nós. É dificil esconder. 

Mas tu não podes querer-me, não podes amar-me. Não entendo porque continuaste sempre a chamar pelo meu nome nem porquê que me queres contigo. Esta noite, fiquei com a certeza de que o que aconteceu não se voltará a repetir...nunca mais...quero que me odeies. Quero que te afastes para tua própria segurança. Quero-te longe de mim. Não vais viver para sempre, sabias? Eu não te vou fazer viver para sempre e tu nunca vais ter uma vida normal comigo... 

Durante este tempo todo não entendeste isso e também não desiste de mim... Peço desculpa se o que me puxou para ti esta noite não foi aquilo que esperavas. Se o desejo de ser tua não passou apenas disso, de um desejo que agora tenho de apagar da minha mente, mesmo depois de todas as palavras que me disseste e de todos os beijos que partilhámos. 

Sinto-me fraca quando o teu olhar pousa em mim e o teu cheiro invade a minha mente, não quero sentir-me assim, fico confusa. Mas depois há aqueles momentos em que me estendes os braços e eu caminho para lá sem defesas. Sou um predador, não posso apaixonar-me pela presa. Não posso, não devo...pelo menos se queres continuar vivo. Sei que não vou conseguir partilhar os meus pensamentos contigo e sei que quando acordares, eu vou continuar aqui sentada e tu vais ficar surpreendido por não ter ido embora e vais olhar-me daquela maneira, fascinado, como me tens olhado este tempo todo, como se eu fosse muito especial. Mas não sou especial, sou um monstro...espero que não o descubras da pior maneira... 

Cláudia Melim

Não sei se faz muito sentido continuar a colocar no blog partes de uma história que comecei em 2009. Em que a primeira é sem dúvida a melhor que escrevi até agora. Mas achei que esta continuação ficava bem com a fotografia e por isso aqui está.
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Lua de Sangue - Parte III

É aconselhável ler as primeiras duas partes de Lua de Sangue [I & II] 

Há pelo menos dois meses que não te procurava e evitava todos os locais onde nos podíamos encontrar. Se senti a tua falta? Não era a tua falta que sentia, era do que me fazias quando te aproximavas. Era da tua vontade de me tocares, era da adrenalina de saber que não te queria tocar para não te magoar, mas ter em mim algo a dizer: “Força, ele é teu se quiseres!” 

E eu queria, queria tanto que sentia que se o fizesse trairia toda a minha espécie, mesmo que eles me tenham deixado para trás há muito tempo. Mas estava condenada a estar sozinha, mesmo sabendo que podia estar contigo. Era uma confusão na minha cabeça que se traduzia numa raiva transformada na violência de todos os que matei nesses dois meses. 

Uma dessas noites, encontrei um rapaz que saia do carro numa rua deserta. Os humanos são realmente descuidados, mas nessa noite também o fui. Aproximei-me lentamente, agarrei-o com força e virei-o para mim. Era tão parecido contigo que não consegui fazer nada. Larguei-o violentamente contra o carro, pedi desculpa e fugi para casa. A mesma casa onde estiveste pela primeira vez, a mesma casa que nessa mesma noite, destrui e incendiei.

Estás a matar-me. Estás a matar-me da única forma que consegues. Isto é de loucos e há muito que penso ter perdido a lucidez. Enquanto os bombeiros tratavam do incêndio, sai pela janela. Segui os meus instintos e fui procurar-te. Queria ver-te, queria que me tocasses para dizer para te dizer para não me tocares. Queria que me beijasses para te pedir para que nunca mais o voltasses a fazer. 

Não foi dificil encontrar-te. Toquei à campainha no portão e ele abriu-se. Não sei se me esperavas mas assim que me aproximei da porta, abriste-a. Olhámo-nos nos olhos por momentos.

- Vais ficar aí a olhar para mim? – perguntei.

- Deveria convidar-te a entrar? – questionaste parecendo calmo demais perante a situação.

- Talvez tivesse sido melhor não ter vindo. – Afirmei virando-lhe as costas e caminhando para o portão.

- Não. Fica. – disseste baixinho. – Podes entrar... 

Nesse momento, virei-me e atirei-te para o chão, ficando em cima de ti. Deves ter achado que foi má ideia convidares-me a entrar, mas a verdade é que desta vez não iria fazer-te mal. - O que pensas que estás a fazer? – perguntaste surpreendido. Sem te deixar dizer mais nada, beijámo-nos, enquanto nenhum de nós se arrependeu. 

Há beijos que sabem a pecado, que mesmo sabendo que não podemos, que não devemos e possivelmente poderá prejudicar-nos, aquilo que sentimos faz esquecer tudo o resto. E eu sei o que me fazer sentir: viva. Fazes-me sentir que não sou um monstro. 

Nunca tinha feito nada assim, nem mesmo em humana. Nunca tinha sentido nada assim até teres aparecido na minha vida. E nessa noite, mostraste-me que me posso controlar. Que não tenho de me impedir de fazer nada, que as situações estão controladas se assim o desejar, que o mundo pode ser nosso se assim quisermos. 

Sinceramente, não importa o que virá amanhã de manhã porque sei que ainda estarás comigo. Esperaste tanto tempo por isto. Lá no fundo sempre soubeste que seria tua...e sou, mesmo que me custe a acreditar que seja verdade...
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Lua de Sangue - Parte II

É aconselhável ler a primeira parte de Lua de Sangue.

Outra noite. Outra caçada. Há uma semana que não saía para caçar, não tinha vontade e sabia que continuavas a observar-me, a estudar os meus movimentos. Fazia exactamente uma semana que não te via, mas a minha fome estava tão incontrolável que ver-te apenas despertaria ainda mais a minha luxúria.

Nessa noite, escolhi como destino um bar na vila. Ninguém me conhecia e não teria de me preocupar com nada. Os humanos eram tão idiotas que bastava estar um pouco mais produzida que nem sequer precisava de os induzir a fazerem nada do que queria, eles faziam de livre vontade. Era isto que tirava toda a efervescência de uma boa caçada.

Entrei e os olhos das dezenas de pessoas junto ao balcão desviaram-se para a minha direcção. É interessante como nós os vampiros temos tanto impacto sobre os humanos. Parecem corvos atraídos por brilhantes. É interessante como somos tão estranhamente atraentes, como o nosso cheiro os excita e os trás até nós como ovelhas.

Olhei em redor e o meu olhar pousou no canto do balcão. Ali estavas tu. Olhaste na minha direcção. Que estranha sensação. Naquela noite, só queria dançar e gastar as minhas energias ali sem mais nada. Assim que comecei a dançar lentamente, alguns dos homens que estavam perto do balcão começaram a aproximar-se de mim. Olhei-os com desprezo e o meu olhar continuou fixado em ti.

“Vem…” – pensei.

Contigo não queria usar nenhum dos meus poderes, porque não era com batota que gostava de conseguir as coisas. Pouco depois, levantaste-te e vieste ter comigo. Seguraste-me na mão e puxaste-me até uma das mesas.

O teu toque desperta-me os sentidos e o teu perfume continua a causar o efeito que mais temo. Contudo, nada podia acontecer, revelar a minha identidade ali seria demasiado arriscado. Sentámo-nos num canto, de frente um para o outro.

- Que fazes aqui? – perguntaste.

Olhei para as pessoas no bar. Que resposta lhe dar? Sangue…prazer…ali estava tudo o que procurava naquela noite. E tu também estavas ali.

- Porquê que não olhas para mim? – questionaste. – Estás a debater-te?

Olhei-te nos olhos. Com a boca ainda fechada, passei a língua pelos caninos e baixei o olhar.

- Fala. – paraste – Mexes comigo…

- É normal, isso é porque sabes o que sou… - respondi, levantei-me e sai dali.

Vieste atrás de mim. Agarraste-me pelo braço e puxaste-me. Não resisti.

- Porque estás sempre a fugir de mim? – disseste sem te aperceberes que estávamos sozinhos num beco e aquela poderia ser a tua última noite.

- Estás sempre a seguir-me porquê? – Repliquei. – Queres morrer? É isso?

O teu dedo pousou sobre os meus lábios.

- Não me matarias…faço-te sentir viva. – sussurraste.

Empurrei-te contra a parede e vi como tinha doído.

- Odeio-te.

Sorriste.

- Mas não consegues matar-me…e isso corrói-te. Vejo-te a debateres-te contra a tua sede.

Não sei onde tinhas ido buscar tanta confiança naquela noite para me falares daquela maneira. Mas tinhas razão. Estava a olhar para a tua boca como ela se movia enquanto falavas e o pescoço exposto...Queria morder-te, sentir o teu sangue fluir nos meus lábios, lamber a ferida até estar seca e no entanto, estava paralizada. Não conseguia…

- Pára. – disse afastando-me, calando os meus pensamentos. – Já matei tanta gente. Não imaginas. Não consegues imaginar sequer o prazer que isso me provoca…

- Os teus olhos mostram-me a sede que tens dentro de ti. Estão a mostrar-me como tudo queima ai dentro de forma intensa e incontrolável. Estás a controlar-te. No entanto, se fugir agora tu virás atrás de mim, está no teu instinto… - Parecias tão calmo.

Os meus olhos voltaram a pousar nos teus. Aproximei-me com o intuito de algo que fizesse acalmar o meu desejo. Não consegui. Dei um salto subi a varanda por cima de ti. Continuei a subir até ao telhado e deixei-te cá em baixo a olhar para mim. Estúpido mortal.

Era complicado lidar com a situação. Tudo em ti me chamava veementemente, tudo em ti me deixava inquieta e no entanto, não conseguia reagir. Tinha medo que nos voltássemos a tocar, medo que despertasses em mim algo que não iria conseguir controlar. Medo de te querer tanto. Desejar-te como a nenhum outro. Medo de ser fraca demais para controlar a minha fome. Mas, quando o teu cheiro me invadia e me tocavas eram os sentidos que mandavam e era difícil a cabeça interferir. Eu era um animal. Sem o meu lado humano, seriam os meus impulsos a comandar, seria escrava da minha vontade, sem dor e sem culpa. Vítima de um prazer sem renome. Ou talvez prisioneira de um amor com o teu nome tatuado na pele…

Cláudia Melim
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Lua de Sangue

Blood Moon by Cláudia Melim

unca pedi que me seguisses. No entanto, a tua vida era seguir os meus passos,
encontrar-me e deixar-me fugir. Não podias fazer nada porque a tua condição frágil não o permitia e mesmo que alguma vez te quisesse do meu lado não o podia fazer. Mundos diferentes, apetites diferentes. Mas naquela noite passou-se qualquer coisa que nunca deveria ter acontecido.

Estávamos em pleno Outubro, as noites ainda eram amenas, mas já começava a sentir na pele o toque do frio gelado. Caçar era sem dúvida um dos meus passatempos favoritos. Quando temos a eternidade não existe pressa e poucas vezes existem objectivos concretos. Tudo o que eu sempre quis foi divertir-me, só a morte não é divertida. Mesmo que ainda me reste algo de humano, são os instintos e o chamamento do sangue que me guiam. Não sou Sangue-Puro, sou fruto de uma infracção à lei dos vampiros, é estritamente proibido os Sangue-Puro transformarem humanos. No entanto, ele dizia-se demasiado fascinado, demasiado esfomeado e isso custou-lhe a imortalidade. Fui condenada a vaguear sozinha sem o meu mestre. A sobreviver na morte, a aguentar a dolorosa transformação do meu corpo consumido pelos vermes devoradores de alma. A arrastar-me pelos becos e a ter que matar sem saber muito bem como se fazia.

Depois começaste a perseguir-me. A procurar-me, a assistir à maneira como matava todas as minhas vítimas. Sabia que sempre estiveste escondido em cada uma das minhas caçadas e por pouco também eras uma delas.

Estava a escurecer bastante depressa. A lua de sangue começava a revelar-se e eu conhecia bem o que significava. A última colheita do ano, o sacrifício humano. Naquela noite o laço que ligava os mortos e os vivos não podia ser mais forte e nós provámos isso mesmo.

Ainda estava em casa quando ouvi os teus passos apressados na rua. Conhecia perfeitamente o impacto das tuas botas na calçada. Senti o teu cheiro a perfume tão próximo. Apenas achei estranho que tivesses vindo enfiar-te na boca do lobo tão rapidamente. Olhei para a janela:

“Queres brincar às escondidas?” – Disse em tom de brincadeira.

Aproximei-me da janela e puxei o cortinado com tanta força que o arranquei. Ali estavas tu, encostado à parede, com os olhos serenamente pousados em mim. Nunca tiveste medo de te aproximares demasiado.

“O que queres de mim? Ser apenas mais vítima na minha lista de mortes ou será que me vens pedir a eternidade?”

Não sei porque decidi perguntar tudo aquilo, mas se tivesse vontade de o matar, não haveria conversa. Era estranho como naquela noite, poderias ter simplesmente ido embora porque teria permitido. Não me apetecia lutar contigo e muito menos fazer-te desaparecer. Não compreendia porquê mas era isso que sentia.

“Desculpa…” – Disseste-o de modo tão sincero que assim que saltaste pela janela não consegui impedir-me de ir atrás.

“Espera.” – Não sei se sussurrei ou se gritei, mas paraste imediatamente e olhaste para trás. A noite estava a tornar-se breu e a lua estava a ceder-nos cada vez menos luz.

Não sei ao certo o que me apetecia dizer-te. Ou se me apetecia dizer-te alguma coisa de facto. Mas tu não hesitaste em abraçar-me mesmo sabendo que bastaria um movimento mais brusco e estarias no chão. Passavas a mão suavemente pelos meus cabelos. Eu não queria que me abraçasses, estava a sentir-me terrivelmente frágil.

Com a cabeça no teu peito passei a mão pelo colar que trazia no pescoço. A lua estava a tornar-se cada vez mais escarlate. O eco daquela noite debatia-se ainda na minha mente. Eu precisava de sangue. Abri as mandíbulas com o intuito de as enterrar no teu pescoço e elas fecharam-se num beijo suave. Separámo-nos num impulso e passaste a mão no pescoço, limpando apenas a marca do meu batom de cereja.

Virei-te as costas e corri.

É difícil controlar certos impulsos. Eles simplesmente dominam-nos. Despertam desejos que queremos esconder nos confins mais profundos do nosso corpo. O meu desejo por ti é algo que deixou de ser uma fome intensa por sangue, passou a ser algo intimamente pessoal e que mexe com os sentimentos humanos que ainda incendeiam a minha pele. Não valia a pena ter-te pedido desculpa antes de fugir. Sei que virias a correr atrás de mim como já havia feito contigo naquela noite.

E se um dia parássemos de fugir um do outro?

Cláudia Melim

Sobre mim

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Cláudia Melim.
Fotografa de moda & fantasia em Wicked Wonderland Photography. Residente em Lisboa.

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